Beatriz Mattos assumiu a Ybá aos 25 anos, apostou na ciência, vendeu bens pessoais para montar sua própria fábrica e encontrou no Sicredi o parceiro que faltava para crescer
Uma árvore nativa do Cerrado está na origem de um dos negócios mais singulares de Mato Grosso do Sul. Aos 28 anos, a farmacêutica Beatriz Mattos conduz uma trajetória marcada por coragem, ciência e continuidade. Nascida e criada em Campo Grande, ela cresceu acompanhando de perto o trabalho da mãe, médica ginecologista e fundadora da Ybá Cosméticos. Foi dessa convivência que surgiu a escolha profissional de Beatriz e, anos depois, sua consolidação como líder do negócio.
Fundada oficialmente em 2015, a Ybá nasceu dentro da incubadora da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), após um processo seletivo que permitiu transformar uma ideia em empreendimento estruturado. A inspiração veio da prática clínica: pacientes relatavam os benefícios do uso da casca do barbatimão em banhos de assento e na cicatrização pós-parto. A partir desse conhecimento popular, iniciaram-se os estudos científicos e o desenvolvimento do extrato natural da planta, que se tornou a base de toda a linha de produtos da marca.
Uma receita popular
Antes de se tornar empresa, o barbatimão era receita de mãe. No consultório da Dra. Izabel, ginecologista que fundaria a Ybá Cosméticos, mulheres relatavam o uso cotidiano da casca da árvore: chás, banhos de assento, cuidados pós-parto. Os relatos eram consistentes: alívio de infecções, controle da candidíase de repetição e cicatrização acelerada.
Em 2014, mãe e filha submeteram o projeto a um processo seletivo de incubação de empresas da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande, e foram aprovadas. No ano seguinte, a marca foi oficialmente constituída e passou a integrar a incubadora da instituição. O negócio nasceu com um propósito claro: transformar o conhecimento popular sobre o barbatimão em produto com respaldo científico.

A escolha de Beatriz pelo curso de Farmácia tinha razão de ser. Ainda no terceiro ano do ensino médio, ela já participava do desenvolvimento dos produtos e do processo de extração do ativo natural da planta.
A passagem do bastão
Em 2022, a fundadora deixou a empresa. Beatriz, recém-formada, passou a responder sozinha por toda a operação: desenvolvimento de produtos, relacionamento com parceiros, gestão financeira e expansão comercial. A empresa saiu da incubadora da UCDB e migrou para a incubadora municipal de Campo Grande, ainda sem estrutura para sede própria.
No início de 2023, a incubadora da prefeitura fechou para reforma sem prazo definido de retorno. A decisão não poderia ser adiada: aguardar ou estruturar a própria fábrica. Beatriz optou pelo segundo caminho e o custo foi alto. A construção exigiu adequações técnicas rigorosas para atender às normas legais de produção farmacêutica. Grande parte do investimento veio de recursos próprios, incluindo a venda de bens pessoais.
“Empreender exige dedicação, coragem e resiliência. É preciso se permitir enfrentar frustrações. Não é uma jornada fácil, mas é muito satisfatória, comenta a farmacêutica”, discorre.
O Sicredi como virada do negócio
Foi nesse cenário de transição, com fábrica em construção, fluxo de caixa pressionado e demanda em crescimento, que a Ybá buscou o Sicredi. A cooperativa de crédito entrou em 2023 com duas frentes de atuação: financiamento para a conclusão da parte estrutural da fábrica e capital de giro para sustentar a operação durante o período de ajuste.
Com a chegada de uma nova gerente na agência, a empresa foi convidada a participar do programa Donas do Negócio, iniciativa do Sicredi voltada ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. O acesso a novas linhas de crédito, com condições diferenciadas, abriu possibilidades que antes estavam fora do alcance.
Além do crédito, o programa proporcionou algo igualmente valioso: visibilidade. A participação em feiras e eventos estratégicos permitiu que o empreendimento apresentasse seus produtos diretamente ao consumidor final, fortalecer a marca e ampliar a rede de parceiros comerciais.
“Conseguimos acessar novas linhas de crédito com condições melhores e passamos a participar de eventos e feiras estratégicas. Essas feiras são importantes para divulgação, pois conseguimos conversar diretamente com o cliente, apresentar o produto e fortalecer a marca”, afirma Beatriz Matos.
1.180 quilos de extrato
O maior case interno da Ybá Cosméticos é também o mais audacioso. O sabonete íntimo feminino à base de barbatimão, produto que consolidou a marca, deixou de ser comercializado diretamente pela empresa. Beatriz optou por uma transferência de tecnologia para a Biolab, indústria farmacêutica de atuação nacional. A empresa passou a ocupar outro papel na cadeia: fornecedora do extrato vegetal, a matéria-prima principal.
No ano passado, a empresa forneceu 1.180 quilos de extrato de barbatimão para a Biolab. Como cada unidade do produto final utiliza menos de dois gramas do ativo, o volume representa centenas de milhares de unidades circulando no mercado nacional, com a tecnologia desenvolvida dentro de uma incubadora universitária em Campo Grande.
Hoje, o portfólio da marca vai além da linha humana. Em agosto do ano passado, a empresa entrou no segmento veterinário, desenvolvendo produtos com o barbatimão como ativo principal para uso em pets. A linha conta com distribuição em diversas cidades do estado, presente em pet shops e clínicas veterinárias.
Ninguém cresce sozinho
Beatriz Mattos não esconde que o crescimento é resultado de uma rede. Sicredi, Donas do Negócio, Sebrae e governo do estado figuram entre os parceiros que tornaram possível transformar a casca de uma árvore do Cerrado em uma empreendimento com alcance nacional.
Para outras mulheres que desejam empreender, Beatriz deixa um conselho direto: acreditar na própria ideia, dominar o que se propõe a fazer e não ter receio de pedir ajuda. “Ninguém cresce sozinho”, resume a empreendedora que, aos 28 anos, já provou que conhecimento técnico e coragem são a combinação certa para superar qualquer barreira.